O papel do namoro e o namoro de papel – Por Paulo Briguet

Sem Título 1

Estava eu começando a reler “O Caminho da Servidão” quando, por notável coincidência, uma amiga chamou-me a atenção para o artigo “Namoro de papel passado”, publicado ontem na Folha (página 2). Fechei o livro de Hayek, abri o jornal e li o artigo. A autora do texto defende o chamado “contrato de namoro” para definir juridicamente o tipo de relação vivida pelo casal. “O contrato de namoro pode ser particular, mas o ideal é que seja público, feito por meio de escritura pública em cartório”, escreve a autora.

Logo após concluir a leitura do interessante artigo, abri de novo o livro de Hayek e deparei com um trecho de Tocqueville citado pelo pensador austríaco:

“Um novo tipo de servidão aparece quando, depois de ter subjugado sucessivamente cada membro da sociedade, modelando-lhe o espírito segundo sua vontade, o Estado estende então seus braços sobre toda a comunidade. Cobre o corpo social com uma rede de pequenas regras complicadas, minuciosas e uniformes, rede que as mentes mais originais e os caracteres mais fortes não conseguem penetrar para elevar-se acima da multidão. A vontade do homem não é destruída, mas amolecida, dobrada e guiada; ele raramente é obrigado a agir, mas é com frequência proibido de agir. Tal poder não destrói a existência, mas a torna impossível; não tiraniza, mas comprime, sufoca e entorpece um povo, até que cada nação seja reduzida a nada mais que um rebanho de tímidos animais industriais, cujo pastor é o governo.”

As palavras do autor de “A Democracia na América” mostram-nos o risco que existe ao se ampliar a interferência do Estado na vida das pessoas. Se a mediação do poder estatal já é excessiva nas relações econômicas e trabalhistas, imagine-se o seu efeito nas relações íntimas e amorosas! Será que o papel do namoro será trocado pelo namoro de papel?

O funcionamento de uma sociedade depende de um fator imponderável, mas essencial: a confiança. Quando permitimos que novas formas de mediação burocrática interfiram em nossa vida, a tendência natural do Estado é usá-las como pretexto para criar mecanismos cada vez mais complexos de controle social e intimidação. E tudo isso surge de maneira sutil, às vezes inconsciente, na melhor das intenções…

Namoro, amizade, estudo e trabalho deveriam ser instrumentos para reforçar os vínculos de confiança entre as pessoas, não para destruí-los. Se as relações sociais e individuais se tornarem campos de guerra, quem se apresentará como único pacificador possível? O Estado. Assim, o ente que deveria servir à sociedade passa a servir dela, com leis, normas e impostos cada vez mais pesados. É a lógica marxista da luta de classes transposta para todos os aspectos da existência. Uma lógica da qual o Brasil quer se livrar.

O namoro, a amizade e a fé religiosa estão entre as raras coisas da vida sobre as quais o Estado e seus ideólogos ainda não imperam como senhores absolutos. Se há golpistas e criminosos que se aproveitam disso, que sejam punidos pelas leis existentes. A maioria de nós, no entanto, ainda confia na confiança. Graças a Deus.

Fonte: Folha de Londrina

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